quinta-feira, 21 de maio de 2009

Leila Diniz



"Leila inmortalizou-se como a transgressora, representando no inconsciente nacional a alegria de viver pura e simplesmente".
Joaquim Ferreira dos Santos


Pois que todo mundo me pergunta quem é, ou porque eu gosto tanto dela tanto assim, e eu nunca acho que expliquei bem. Coitada, era brasileira. Porque se fosse americana, até européia, ninguém teria que me perguntar quem é. Vide Marlyn Monroe. Sabe, não é que eu não goste da Marlyn, o problema é que ninguém consegue enxergar a grande fraude em que transformaram ela. Bonita ela era. Mas Sophia Loren e Brigite Bardot também eram. E nenhuma dessas, na minha humilde opinião, chega nem perto da Leila.

Primeiro por causa da beleza. Acredito que nesse quesito, todas empatam, cada uma linda a sua maneira. A diferença da Leila é que ela não precisava provar que era bonita. Na verdade, as vezes parece que ela ou não fazia idéia de quão bonita era, ou isso simplesmente não fazia diferença. Olha, Monroe tirava fotos só de toalha, a Bardot levantava a saia, Sophia Loren fazia biquinho. Deem uma pesquisada nas imagens da Diniz. Tem foto com toalha no cabelo, tem foto bocejando, grávida, e na grande maioria, só um sorriso gigante já basta. A beleza da Leila não tinha efeitos nem afetações, era tão simples que chega a ser inacreditável. Pra quem leu Cem Anos de Solidão, é quase uma Remedios. Ponto pra ela.


"Meio inconsciente, me tornei mito e ídolo, ou mulher símbolo da liberdade, pregadora-mor do amor livre. Muita gente não entende o que é isso. Só quero que o amor seja simples, honesto, sem os tabus e fantasias que as pessoas lhe dão"

A moça viveu nos tranquilos anos da ditadura. Muito mais que uma ditadura na politica, existia ainda outras ditaduras. Leila desafiou todas, de um jeito único. Ao invés de ser uma esquerdista mala, ou uma feminista macho, ou qualquer ista que odeie o "sistema" e fique maquinando planos malignos para derrubar qualquer coisa, ela desafia tudo simplesmente por ser. Explico. Ela não atacava nada. Era simplesmente indiferente, alegre. A simples existência dela desafiava qualquer imnposição. Creio que nada é mais revolucionário que ser alegre e livre. Assim, divertida, moleca, festeira, ela seguia irritando toda espécie de poder, quebrando toda imposição, praticamente sem querer.

"Viver intensamente é você chorar, rir, sofrer, participar das coisas, amar, achar a verdade nas coisas que faz."


Os militares se arrepiaram quando ela deu uma entrevista no Pasquim, onde ela falava sobre amor livre, traição, separação, sexo, entre outras polêmicas com uma dose nem um pouco modesta de palavrões. Foi um escândalo. Algum tempo depois, por causa disso, a ditadura institui a censura prévia, que ficou conhecida como "decreto Leila Diniz". E pra ela, simplesmente não fez diferença. Ela continuaria falando tudo que lhe viesse a cabeça.


"Já amei gente, já corneei gente e eles
entenderam e não teve problema nenhum. Somos todos uma grande família."


Quanto a parte cultural, a Globo tinha praticamente um monopólio sobre as melhores produções. Como todo mundo sabe, a Globo tinha o rabo preso com a ditadura, que odiava Leila. Por isso, fez poucos papéis na TV, e também por causa dessa merda de monopólio, anda quase esquecida hoje.


" Para mim, tanto faz representar
Shakespeare ou Gloria Magadan, desde que eu me divirta e ganhe dinheiro"


E agora vem a melhor parte: a "moral da sociedade". Nunca houve mulher mais polêmica no Brasil (e se alguém pensar "Luana Piovani" eu nem sei o que eu faço). Pra começar pela entrevista citada. Desistam, é praticamente impossivel encontrar isso na íntegra na net. Não me lembro como achei alguns pedaços, se encontrar algum de novo coloco aqui. Me lembro dela falando entre vários ***, que transava de manhã, de tarde e de noite. Que já havia sido corneada, já tinha corneado, e que depois de conversar com os caras tinha ficado tudo bem. Que é possivel amar uma pessoa e ir pra cama com outra e que, inclusive, já tinha acontecido várias vezes com ela. Talvez nada disso seja chocante hoje, mas transportem-se aos anos 60. Outra coisa que hoje é absolutamente normal graças a ela é a gravidez. Mulher gravida tinha que ficar em casa, batinha, respeitável, mãe. Tinha que ter uma aura de seriedade, de divino. Leila colocou seu biquininho nada respeitável pra época e foi pra praia. E daí? Daí que foi capa de revistas, gerou polêmica, espanto, admiração, e sua foto mais famosa:




(peço de novo que se lembrem que não estamos no ano 2009. Era 1960 e tantos.)
Com tudo isso, é de se imaginar que ela tenha arranjado vários inimigos, e principalmente a aversão de várias mulheres. Pelo contrário. Era cobiçada por homens e admirada por mulheres. Com um comportamento que deveria desagradar a todo mundo, Leila foi uma das atrizes mais queridas do Brasil, sem ajuda de Globo, de governo, de qualquer coisa.



"Não morreria por nada deste mundo, porque eu gosto realmente é de viver. Nem de amores eu morreria, porque eu gosto mesmo é de viver de amores".

E só pra completar a polêmica, se casou aos desezete, separou-se, casou-se de novo, separou-se de novo. Diferente da maioria das moças da época, casar não era seu objetivo de vida. Diferente das moças até hoje, ter uma super carreira também não era. Eu tenho a impressão que a única coisa que ela queria era ser feliz. Amar de verdade, não de fachada, se divertir na profissão, e não morrer por ela. Olhando as fotos, lendo as enrevistas, dá pra apostar que ali estava alguém que sabia ser alegre, de verdade. Que deve ser uma das coisas mais importantes pra aprender na vida.


"...sei que me arrisco a solidão, se é isso que me perguntam.Mas, eu só sei viver assim!"