
Esse barbudo aí do lado. Luis Fernando Carvalho. Pela ordem que minha memória coloca: Rei do Gado, Lavoura ARcaica, Hoje é dia de Maria (os dois) e Capitu.
Rei do Gado, então. Eu não me lembro de quase nada, mas sabe quando sua cabeça guarda cenas que não faz sentido guardar? Você não sabe bem porque guarda. Pois bem, eu lembro da primeira vez que a Patricia Pillar apareceu na novela. Ela estava chegando na fazenda do Antônio Fagundes, e ficou olhando pra fazenda. Daí deu um close no rosto dela, não lembro se ficou tocando alguma coisa, lembro de alguém comentando que até-parece-uma-retirante-ser-bonita-assim, enfim!...Foi uma das poucas cenas que eu lembro da novela, e mais pra frente vai dar pra entender porque eu citei. Outra coisa que eu lembro é que todo mundo gostava muito dessa novela. Mas era só uma novela, não dá pra pedir uma obra de arte, além disso, o cara era só o diretor, e todo mundo sabe que em novela quem manda mesmo é roteirista.
Então veio Lavoura Arcaica, que eu falei ali embaixo. E, fora a cena do diálogo do pai e do filho, as duas cenas mais simbólicas e bonitas do filme são da Simone Spoladore, o que é esquisito, já que ela não fala uma palvra o filme inteiro. Pois é, são cenas de dança. E a Simone Spoladore, que apesar de ter um charme único, não é exatamente linda, enche a tela toda, o lugar todo, hipnotiza. Ela fica mais que linda, ela fica deslumbrante. O cara ainda é só o diretor, mas no cinema a coisa é bem diferente - o diretor é quase um deus, o roteiro é só um apetrecho, um detalhe (só pra citar um exemplo, o Hitchcock só escolhia livros medíocres pra adaptar). Então o filme todo, apesar de respirar Raduan Nassar, tem toda a cara do Luis Fernando Carvalho. Como qualquer filme do Tarantino você quase pode ver o Tarantino através da cena, ou o mesmo em um Tim Burton, ou um Miyazaki - o Luis Fernando Carvalho também criou uma marca d'agua nesse filme, que repetiu em todos os trabalhos seguintes.
Como Em Hoje é dia de Maria. É teatral, barroco, over até. Talvez por isso a realidade nunca é clara, tanto no Lavoura, quanto aqui, tudo é meio absurdo, no primeiro porque são relatos de um pertubado, e nesse, porque é a visão de uma menina, e também porque é um conto de fadas. As cenas mais bonitas? Escolho duas do primeiro: Maria virando adulta é uma, e ela cantando com o Passaro, outra. E a atriz da vez é Leticia Sabatela. Mais uma coisa: dessa vez, ele fez tudo: o roteiro, a direção, e até compôs (ainda tem acento?) as músicas. Talvez não seja à toa que eu acho esse o maior trabalho dele.E enfin! Capitu, que eu tenho enrolado tanto pra falar. Não é melhor que Hoje é dia de Maria, mas é divino também. As mesmas marcas que eu citei acima foram exploradas até o limite, passando dele várias vezes, o que não diminui de jeito nenhum a qualidade da obra. É muito teatral, os atores realmente interpretavam como em um palco, exagerando os trejeitos, os gestos. É muito barroco, os cenários, os figurinos, a maquiagem, até a trilha sonora. Some-se os dois e tenha o projeto mais over da televisão brasileira - e um dos mais geniais. A Capitu garota, Leticia Persilles foi a musa da vez e conseguiu o inimaginável - brilhar tanto quanto, ou até mais, que a Maria Fernanda Cândido (embora seja até injusto, porque a Capitu só ficou adulta nos dois últimos episódios, quando o foco do Bentinho era o Escobar). A cena é a Capitu menina riscando com giz no chão um traçado que o Bentinho velho segue rindo, mas com dificuldade (toca Beirut, é claro). O roteiro é do Machadão.
Pelo que li, infelizmente não agradou. Como a Pedra do Reino (não assisti, então não falei) também não tinha agradado. Parece que a situação do cara na Globo já não era das melhores, e depois de Capitu ficou pior. Mesmo assim o cara continuou fazendo do jeito dele, sem tentar tornar nada mais "digerível", pelo contrário, cada trabalho mais difícil que o anterior. E é exatamente por isso que eu acho o cara um gênio - porque ele está ficando louco. Ele tá mandando pra Globo, pro ibope, pra fama, pra grana um belo de um sifudê, e fazendo as coisas como ele quer, quer gostem quer não. E as coisas na cabeça dele tão crescendo tanto, que ele nem pensa mais em público - que é o fim de toda a arte - ele só se concentra nesse mundo dele. Provavelmente vai terminar miserável. Mas pode ser eterno.Por fim, só pra explicar o motivo porque eu citei todas aquelas cenas. Primeiro, claro, pra demonstrar o talento dele. Depois, porque, não sei se vocês repararam, a maioria tem como centro mulheres (ou meninas, tanto faz). Em tudo que eu assisti dele, sempre as mulheres eram as responsáveis por desencadear toda a história. São sempre o centro do mundo, que fazem todas as outras pessoas girarem - e tem um poder de construir tão forte quanto o de destruir. Por mais esse motivo eu ainda aposto alto nele, porque sempre achei que a paixão (não a dor, nem o amor) é o melhor combustivel pra arte. E esse é o diretor mais apaixonado que eu já vi.
Bom, de nada adiantou dividir os posts - esse também ficou gigante. Ninguém vai ler, quer apostar? Prometo que nos próximos quatro ou cinco eu me seguro mais.
E só pra provar que dá pra confiar em mim, que venha o próximo post, só com algumas das cenas maravilhosas que eu citei nesse.
4 comentários:
hUAHUHAUHAUAH
|FOi eu quem disse:
"Até parece que uma retirante é tão bonita assim!"
O loko... acho que o melhor trabalho dele com certeza foi REI DO GADO.
Eu não me lembro, obviamente, mas dizem que um dos trabalhos mais encantadores do Carvalho foi Renascer, principalmente os primeiros capítulos, dizem que foi mesmo um trabalho de gênio. Eu não vi todos os trabalhos dele, pra falar a verdade, vi bem pouco ou nada, mas eu sou intrometido mesmo então, fazer o quê?, tenho que opinar.
Me parece que o Luiz Fernando Carvalho sofre daquilo que eu chamo "estrelismo artístico". Primeiro, começou fazendo essas novelas aí, depois descambou pra filmes e minisséries "de arte". "Hoje é Dia de Maria" até que deu certo, porque ele pegou um campo fértil: o mundo infantil, o mundo do maravilhoso. E pela óptica da infância tudo parece mais lindo, mais, digamos, "aceitável". Por isso fez sucesso.
Quando fez "Capitu" ele se jogou na fogueira: adaptar uma obra tão conhecida, tão apreciada, tão superestimada por toda a crítica e pelos ditos "intelectuais" foi realmente uma grande ousadia. Não deu certo, não foi apreciado porque ainda existe conservadorismo. E, em parte, porque é carregado. Pode ser tudo lindo, a imagem, a fotografia, enfim. Mas o mundo que ele criou não é o mundo de Machado de Assis: primeiramente porque aquele não é o Bentinho (Bentinho é calado, quieto, atormentado: e não carregado, exagerado como Carvalho o fez parecer). E me parece que Maria Fernanda Cândido é muita fama pra pouca atriz. A menina que fez a Capitu jovem é mesmo admirável, mas a Maria Fernanda é sem tempero.
Bom, voltando ao caso do "estrelismo artístico": não me convence essa história de que um cara faz uma minissérie pra ele mesmo, sem querer ser reconhecido. Se um dia ele mesmo falar isso, meu, será muita, mas muita prepotência. Artista que é artista quer atingir o público, quer causar a ele sensações. Um artista quer marcar a vida das pessoas, fazê-las parte e refém da sua arte. Acho que é isso.
Quanto ao comentário do Hitchcock eu sempre tenho ouvido isso, que ele adaptava livros ruins. Mas, será que não é daí que surge a maior qualidade dos trabalhos dele? Não é fácil pegar uma história mal escrita e fazê-la no cinema de forma antológica. Como disse Paulo Francis "ninguém matou no cinema como Hitchcock". E nunca matará.
(acho que me excedi, isso aqui dava um post... hahaha)
sem reparo o texto, maravilhoso (mas devia ser dividido em posts menores, rs).
Eu nao tenho opiniao formada sobre o estrelismo de autores e diretores, hoje (nao sei amanha) acho que a arte nao tem fronteiras e que ao artista tudo é permitido, ele tanto pode atingir o inculto (com os breganojos de sucesso) como pode atingir uma parcela mais esclarecida (releitura do machado em outra otica)na arte tudo é permitido.
E apercebo que a arte incomodativa é a que mais faz prestar a atençao e instiga a pessoa (inculta e esclarecida), ENTAO VIVA A ARTE AGRESSIVA......SALVE NELSON RODRIGUES que é o CARA da nossa dramaturgia agressiva.
Gostei muito do texto e de descobrir o blog...estudo o LFC no mestrado, acho que você o definiu muito bem como um cara fundamentalmente apaixonado! :)
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